BM28 - InterMETAL

www.intermetal.pt 2026/1 28 Preço:11 € | Periodicidade: 4 edições por ano | Janeiro, Fevereiro, Março 2026 REPRESENTANTE OFICIAL

SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Avenida Defensores de Chaves, 15, 3.º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone (+351) 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Luísa Santos Equipa Editorial Luísa Santos, Esther Güell, Nerea Gorriti Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas, Nuno Canelas redacao_intermetal@interempresas.net www.intermetal.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 44 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127299 Depósito Legal 455413/19 Distribuição total +4.100 envios. Distribuição digital a +3.400 profissionais. Tiragem +700 cópias em papel Edição Número 28 – Janeiro, Fevereiro, Março 2026 Estatuto Editorial disponível em https://www.intermetal.pt/ EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da InterMETAL adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 4 EDITORIAL 5 Indústria metalomecânica: segurança como fator de competitividade 34 Segurança e proteção no chão de fábrica: os desafios da metalomecânica até 2027 38 Exposição humana a radiações óticas e campos eletromagnéticos em contexto laboral 40 Ensino à distância na área da tecnologia e gestão industrial 44 Fabrico aditivo metálico acelera maturidade industrial e prepara nova fase de crescimento até 2035 48 IA reduz defeitos e desperdício na sinterização de peças de corte 52 Fabrico aditivo viabiliza moldes HPDC de grande formato com refrigeração conformal 54 Trituradora de resíduos de fabrico aditivo por extrusão de termoplásticos: projeto e prototipagem 57 Em segurança se solda, corta e molda metais… [5] Trabalhos a Quente 63 Entrevista com Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol 10 Tendências económicas para 2026: um ano de transformação e resiliência industrial 14 Escassez de talento acelera adoção de agentes de IA na indústria 18 De que forma as ferramentas digitais impulsionam e aceleram os ciclos de aprendizagem das mulheres na engenharia? 20 IA industrial abandona fase piloto e ganha escala na indústria transformadora 22 Processos de retificação combinados para maior eficiência produtiva 24 Série DNX da DN Solutions: Maquinagem ‘multitask’ de alto desempenho ao alcance de todos 28 Mitsubishi Materials apresenta novas ferramentas de alto desempenho 30

4 MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER ATUALIDADE Metal português bate recorde de exportações, mas alerta para risco de desindustrialização A indústria metalúrgica e metalomecânica portuguesa encerrou 2025 com um recorde histórico de 24.169 milhões de euros em exportações, segundo a AIMMAP. O mês de dezembro contribuiu com 1.792 milhões de euros (+3,5%), apesar de constrangimentos alfandegários associados à implementação de um novo sistema informático. O setor registou quatro meses entre os dez melhores de sempre e representa já 33% das exportações da indústria transformadora nacional. Cerca de 75% das vendas destinam-se à União Europeia - com destaque para Espanha e Alemanha - e 25% a mercados extracomunitários. Apesar do desempenho, a associação alerta para riscos estruturais que ameaçam a competitividade, nomeadamente o novo enquadramento europeu para tarifas sobre o aço e o Mecanismo de Ajuste Carbónico na Fronteira (CBAM). A AIMMAP considera que estas medidas, a par do crescente protecionismo global, podem acelerar um processo de desindustrialização europeia. “Estes números não se repetirão tão cedo caso a Comissão Europeia não reverta o caminho das medidas que tem vindo a adotar, especialmente no que respeita à proteção da cadeia de valor downstream, onde se incluem milhares de empresas metalúrgicas e metalomecânicas e mais de 13 milhões de trabalhadores a nível europeu”, alerta Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da associação. Neste contexto, o dirigente defende que os acordos UE-Mercosul e UE-Índia podem representar “uma oportunidade de ouro para recentrar a economia europeia no mapa geoestratégico mundial”, desde que se concretizem as medidas necessárias. ArcelorMittal investe 1,3 mil milhões para descarbonizar a produção de aço A ArcelorMittal confirmou a construção de um forno elétrico a arco (EAF) na sua fábrica de Dunquerque, em França, num investimento de 1,3 mil milhões de euros. O projeto, anunciado hoje durante a visita do Presidente francês Emmanuel Macron às instalações, deverá iniciar operações em 2029 e constitui um passo decisivo na descarbonização da produção de aço no país. Metade do investimento será apoiada por Certificados de Eficiência Energética. Com capacidade anual de 2 milhões de toneladas, o novo EAF permitirá produzir aço com três vezes menos emissões de CO₂ face a um alto-forno convencional, estimando-se 0,6 toneladas de CO₂ por tonelada de aço, com base numa mistura de sucata, HBI/DRI e metal quente. A decisão surge num contexto de alterações regulatórias na União Europeia, nomeadamente a revisão dos Contingentes Pautais (TRQ) e do Mecanismo de Ajustamento Carbónico nas Fronteiras (CBAM), medidas que a empresa considera essenciais para assegurar condições de concorrência equitativas no mercado europeu. A assinatura de um contrato de fornecimento de eletricidade de longo prazo com a EDF reforça igualmente a estratégia energética da operação francesa. Paralelamente, a unidade de Mardyck, próxima de Dunquerque, inicia este trimestre uma nova fábrica de aço elétrico, num investimento adicional de 500 milhões de euros, reforçando a oferta para os setores industrial e automóvel.

5 Bystronic conclui aquisição da divisão Tools for Materials Processing da Coherent No final de janeiro, a Bystronic concluiu a aquisição da divisão Tools for Materials Processing da empresa norte-americana Coherent Corp., uma operação que lhe permite aceder a novos mercados em crescimento, como a tecnologia médica, a indústria de semicondutores e a fabricação avançada. A empresa suíça confirmou também a recuperação da marca Rofin, que passará a integrar a nova unidade de negócios denominada Bystronic Rofin. A aquisição amplia o portefólio tecnológico da Bystronic com novas aplicações a laser voltadas para o processamento de micromateriais, marcação, gravação e furação. As tecnologias incorporadas permitem trabalhar com uma ampla variedade de materiais, incluindo metal, vidro, cerâmica, polímeros e materiais orgânicos, o que abre novas linhas de desenvolvimento em pesquisa e aplicações industriais. A nova unidade de negócios Bystronic Rofin conta com cerca de 400 funcionários e está sediada em Gilching, perto de Munique (Alemanha). EDITORIAL O arranque de um novo ano é sempre um bom momento para refletir sobre o estado da indústria e, sobretudo, sobre o caminho que temos pela frente. Em 2026, o setor metalomecânico português enfrenta um contexto particularmente desafiante. Fatores como o aumento dos custos de produção, a escassez de recursos humanos qualificados e uma concorrência internacional cada vez mais intensa podem condicionar o desempenho desta indústria, que, em 2025, voltou a alcançar níveis recorde de vendas ao exterior. Este é, portanto, um momento exigente para o setor. Mas não é, de forma alguma, um momento de resignação. Até porque, se há algo que a história recente da metalomecânica portuguesa demonstra é a sua capacidade de adaptação. Ao longo das últimas décadas, o setor evoluiu de forma notável, investindo em tecnologia, especialização e integração em cadeias de valor internacionais. O caso da indústria de moldes é frequentemente citado como exemplo dessa capacidade de inovação e resposta a contextos adversos - uma característica que, na verdade, atravessa todo o tecido industrial metalomecânico. No início deste ano, essa capacidade voltou a ser colocada à prova, com a tempestade Kristin a afetar muitos dos fabricantes de moldes da Marinha Grande. Em entrevista, Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol, faz um ponto de situação sobre o impacto no terreno e deixa um apelo: Este é o momento de “afirmar, com ainda mais força, a excelência das nossas competências, do nosso know-how, da nossa competitividade no panorama internacional”. Nesta fase de recuperação, a tecnologia volta a assumir um papel de destaque, principalmente num cenário de falta de mão de obra qualificada. As máquinas ‘multitask’, por exemplo, apresentam-se como uma alternativa de elevado desempenho, cada vez mais evoluída e acessível. No campo das ferramentas digitais de apoio à produção, a inteligência artificial está a sair definitivamente do domínio experimental para ganhar escala nas fábricas. Em paralelo, tecnologias como o fabrico aditivo metálico continuam a amadurecer e a abrir novas possibilidades de produção, desenvolvimento de produto e eficiência de processo. Num setor cada vez mais tecnológico, temas como a segurança no chão de fábrica, a qualificação das equipas e a organização do trabalho assumem uma importância crescente. É precisamente sobre estas dinâmicas que incide esta primeira edição de 2026 da InterMetal. Ao longo das próximas páginas analisamos tendências económicas, evolução tecnológica e desafios estruturais que irão moldar o setor nos próximos anos. Porque, apesar das dificuldades do presente, há uma convicção que permanece: a indústria metalomecânica portuguesa já demonstrou inúmeras vezes que sabe atravessar períodos complexos — e sair deles mais forte. 2026: um ano de resiliência

6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Bosch cria nova equipa de I&D em Braga para sistemas eBike A Bosch vai reforçar a sua presença em Portugal com a criação de uma nova equipa de investigação e desenvolvimento em Braga, dedicada a sistemas eBike de próxima geração. A estrutura, atualmente com cerca de 20 colaboradores, deverá atingir 40 até ao final do ano e ultrapassar os 50 até 2027. Deibar representa DN Solutions em Portugal A Deibar, referência nacional no comércio e distribuição de máquinas-ferramenta para a indústria metalomecânica, anunciou a 1 de fevereiro a assinatura de um acordo de representação oficial da marca DN Solutions em Portugal. Fundada em 1998 e com sede na Zona Industrial do Roligo, em Espargo (Santa Maria da Feira), a Deibar tem vindo a consolidar-se como parceiro de confiança das empresas metalúrgicas e metalomecânicas nacionais, graças a uma equipa comercial e técnica experiente e a parcerias duradouras com fabricantes de renome. A sua oferta abrange uma vasta gama de soluções em centros de maquinagem CNC, tornos, retificadoras e outras máquinas-ferramenta de alta precisão. A DN Solutions, por sua vez, é um dos maiores fabricantes mundiais de máquinas-ferramenta CNC, com origem na Coreia do Sul e presença global em mais de 66 países através de uma extensa rede de distribuidores e serviços. O portefólio inclui tornos horizontais e verticais, centros de maquinagem, máquinas multitarefa e soluções de alta tecnologia para setores exigentes como o automóvel, aeroespacial e energia. A nova parceria reforça o compromisso da Deibar em dotar o tecido industrial português de tecnologia de topo, combinando a robustez, precisão e desempenho reconhecidos da DN Solutions com o suporte técnico e comercial local que caracteriza a Deibar. O foco incide no desenvolvimento de tecnologias avançadas de segurança, conectividade e serviços digitais, incluindo algoritmos antirroubo baseados em inteligência artificial e machine learning, software embebido, validação de sistemas, soluções cloud e uma infraestrutura de testes especializada. A equipa trabalhará em articulação com unidades da Bosch na Alemanha, Suécia e Ovar, onde já são desenvolvidos dispositivos de conectividade para eBikes. Com este investimento, a empresa reforça o papel de Portugal na rede internacional de inovação do grupo, consolidando competências nacionais em software, IA e engenharia aplicada à mobilidade elétrica sustentável.

7 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER RecyBrass desenvolve latão sem chumbo com 95% de material reciclado A operação RecyBrass está a desenvolver novas ligas de latão sem chumbo, com mais de 95% de integração de sucata, destinadas a aplicações na mobilidade e em sistemas sanitários. O projeto é liderado pela Barbosa World Brass, única produtora nacional de barra e lingote de latão, e conta com cofinanciamento do Compete 2030. Parlamento Europeu reforça salvaguardas para travar importações de aço A iniciativa surge num contexto de restrições crescentes ao uso de chumbo e maior exigência ambiental no setor metalúrgico. Tradicionalmente utilizado para melhorar a maquinabilidade, este elemento enfrenta limitações regulamentares, impulsionando a procura de alternativas técnicas seguras. O RecyBrass aposta no desenvolvimento de novas composições químicas e em processos termomecânicos avançados, assegurando resistência ao desgaste e à deszincificação sem comprometer o desempenho mecânico. O consórcio integra a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, reforçando a componente científica e a transferência de conhecimento, e posicionando a indústria nacional na produção de ligas mais sustentáveis e alinhadas com a economia circular. O Parlamento Europeu aprovou, a 27 de janeiro, novas medidas destinadas a proteger o mercado europeu do aço face ao excesso de produção mundial. A proposta, adotada na Comissão do Comércio Internacional com 36 votos a favor, dois contra e cinco abstenções, estabelece uma redução significativa das quotas de importação. O novo regime fixa em 18,3 milhões de toneladas anuais o volume de aço que poderá entrar na União Europeia sem direitos aduaneiros, menos 47% face a 2024. Acima desse limite, bem como para produtos fora do regime de quotas, será aplicada uma tarifa de 50%. Fica igualmente proibida a importação de aço proveniente da Rússia e da Bielorrússia. O texto reforça ainda os requisitos de rastreabilidade e exige provas claras sobre a origem do aço importado, garantindo compatibilidade com as regras da Organização Mundial do Comércio. As atuais salvaguardas expiram em junho de 2026. Bruxelas alerta que o fim do mecanismo poderá expor a indústria siderúrgica europeia a novos excedentes globais, num contexto já marcado por pressão sobre preços, perda de emprego e menor capacidade de investimento em competitividade e descarbonização. A comissão parlamentar aprovou ainda o início de negociações com o Conselho, com o objetivo de alcançar um acordo sobre a versão final do diploma na primavera.

8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER PME terão apoio financeiro para implementar Passaporte Digital do Produto As pequenas e médias empresas portuguesas vão dispor, em 2026, de um incentivo financeiro para implementar o Passaporte Digital do Produto (DPP), nova obrigação europeia para comercialização no mercado interno. A medida, anunciada pelo IAPMEI no DPP Summit Guimarães e já aprovada em Conselho de Ministros no final de 2025, visa mitigar os custos de adaptação e reforçar a competitividade empresarial. O DPP agregará informação técnica e ambiental sobre cada produto, exigindo investimentos em sistemas de informação, recolha e normalização de dados. Segundo o CTCP e a APICER, a implementação representa um desafio relevante para as PME, sobretudo ao nível da capacitação técnica e acesso a dados fiáveis. Durante o encontro, foi consensual que o DPP deve ser encarado como oportunidade estratégica, não apenas obrigação regulatória. Do lado do retalho, a Leroy Merlin Portugal destacou a crescente valorização de critérios ambientais pelos consumidores. Persistem, contudo, alertas quanto ao risco de desequilíbrios concorrenciais face a mercados extracomunitários com menores exigências regulatórias. Faro e Creaform reorganizam operações e criam duas unidades globais A Faro Technologies e a Creaform, empresas do grupo Ametek, avançaram com uma reorganização estratégica que resultou na criação de duas unidades de negócio globais: a Faro Creaform, dedicada à metrologia dimensional portátil, e a Faro Insight, focada na captura da realidade e em soluções para gémeos digitais. Desde 13 de janeiro, a área de medição 3D da Faro foi integrada na Creaform, dando origem à Faro Creaform, liderada por Fanny Truchon. A nova estrutura pretende consolidar competências em metrologia portátil, reforçando a precisão e a mobilidade das soluções para ambientes industriais. Paralelamente, a Faro Insight, sob liderança de Dietmar Wennemer e em articulação com a Virtek Vision, concentrar-se-á em soluções de captura da realidade, processamento de nuvens de pontos e gestão de dados para aplicações em construção, infraestruturas, segurança pública e geoespacial. A reorganização visa acelerar a inovação, simplificar a oferta tecnológica e criar sinergias que sustentem o crescimento a longo prazo, reforçando o posicionamento global do grupo em medição 3D e digitalização do mundo físico. Aliados Consulting lança ferramenta digital para cálculo da pegada de carbono A Aliados Consulting apresentou a Carbon at Zero, uma calculadora digital destinada a simplificar o apuramento da pegada de carbono empresarial. A ferramenta permite calcular emissões diretas (Scope 1), emissões associadas ao consumo energético (Scope 2) e ainda o Scope 3, considerado o mais complexo por abranger a cadeia de valor. Num contexto de crescente exigência regulatória europeia e de pressão por parte de clientes e investidores em matéria de critérios ESG, a solução pretende reduzir a complexidade técnica associada à medição de emissões, sobretudo para PME com recursos limitados. Segundo a consultora, a Carbon at Zero transforma dados operacionais em informação estruturada para reporte e definição de metas de descarbonização, alinhando-se com o GHG Protocol. A ferramenta posiciona-se assim como um instrumento de apoio à gestão climática e à preparação das empresas para obrigações crescentes de transparência ambiental.

9 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Walter integra sistemas de fixação Seri e reforça oferta de processo completo A Walter passou a integrar os sistemas de fixação de alto desempenho da Seri no seu portefólio, alargando a oferta a soluções de fixação industrial e disponibilizando um processo completo de maquinagem a partir de um único fornecedor. Com esta integração, os clientes podem contar com uma abordagem integrada que inclui sistema de fixação, estratégia de maquinagem, ferramentas de corte, configuração de processo, gestão de projeto e serviços associados. O objetivo é otimizar o desempenho global, assegurando coerência técnica entre os diferentes componentes e reduzindo a necessidade de articulação com múltiplos fornecedores. Segundo a empresa, esta abordagem facilita a implementação de alterações, centraliza a informação e contribui para um arranque de produção mais estável. Os dispositivos Seri são fornecidos prontos a instalar, previamente testados e concebidos para simplificar a manutenção, recorrendo a componentes hidráulicos normalizados e elementos de desgaste substituíveis. A integração reforça o posicionamento da Walter como parceiro tecnológico na engenharia de processos de maquinagem, com enfoque na produtividade e fiabilidade operacional. Projeto Chipart promove reciclagem de titânio para defesa e fabrico aditivo A Agência Europeia de Defesa selecionou o projeto Chipart — ‘From Chips To Parts: Circularity of Ti scrap from machining to additive manufacturing’ — para testar soluções de economia circular aplicadas ao setor da defesa. A iniciativa visa reduzir a dependência europeia de titânio importado, alinhando-se com a Lei das Matérias-Primas Críticas. O projeto propõe transformar aparas de Ti-6Al-4V provenientes da maquinagem em pó para fabrico aditivo, eliminando a etapa de refundição e produção de lingotes. A abordagem baseia-se em fresagem mecânica de baixo consumo energético e pretende alcançar reciclabilidade superior a 90%, reduzir mais de 95% do consumo energético face às rotas convencionais e produzir peças com densidade acima de 98%. Serão adaptados parâmetros para tecnologias LPBF e DED, validando o desempenho de pó não esférico em aplicações de alto desempenho, nomeadamente militares. O consórcio integra o Idonial (Espanha), líder do projeto, o CRM Group (Bélgica) e o Instituto Tecnológico Dinamarquês, cobrindo toda a cadeia de valor. O Chipart poderá reforçar a resiliência industrial europeia e abrir caminho a cadeias locais e sustentáveis de titânio.

ENTREVISTA 10 MANUEL OLIVEIRA, SECRETÁRIO-GERAL DA CEFAMOL "A indústria de moldes tem uma notável capacidade de adaptação, inovação e resposta a contextos adversos” A Associação Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol) representa um dos setores mais estratégicos da indústria transformadora portuguesa: a indústria de moldes. Com forte concentração nas regiões da Marinha Grande e Oliveira de Azeméis, o setor ocupa o terceiro lugar no pódio europeu e assume um papel determinante nas cadeias de valor internacionais, em particular no segmento automóvel, mas também na embalagem, eletrodomésticos e dispositivos médicos. A recente passagem da tempestade Kristin pela região Centro, com especial incidência na Marinha Grande, veio introduzir um novo fator de instabilidade num setor que já enfrentava desafios significativos: pressão competitiva da Ásia, desaceleração da indústria automóvel europeia, aumento dos custos de produção e escassez de mão de obra qualificada. Nesta entrevista à InterMetal, Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol, faz um ponto de situação detalhado sobre o impacto no terreno, avalia os apoios anunciados pelo Governo e analisa os desafios estruturais que colocam à prova a histórica resiliência da indústria portuguesa de moldes. Luísa Santos A metalomecânica nacional bateu, em 2025, um novo recorde de exportações. Qual é, atualmente, o peso da indústria de moldes no setor? A indústria portuguesa de moldes registou, em 2025, um valor de exportação na ordem dos 635 milhões de euros, consolidando um posicionamento de excelência a nível internacional, sendo o terceiro maior produtor europeu. Estes dados demonstram um crescimento das exportações de 2,2% face ao ano transato, o que representa um dos segmentos com maior incorporação tecnológica, intensidade exportadora e valor acrescentado nesta área industrial.

ENTREVISTA 11 A Marinha Grande continua a ser o epicentro desta indústria? Digamos que a indústria de moldes, em Portugal, tem dois epicentros: a Marinha Grande e Oliveira de Azeméis, estendendo-se esta presença a vários dos concelhos limítrofes em cada uma das regiões. Podemos afirmar que o setor, a nível nacional, concentra cerca de 90% da sua produção num raio de 150km. Qual é a real dimensão dos danos causados pela tempestade Kristin nas empresas da região? A depressão Kristin provocou danos significativos em muitas empresas da região Marinha Grande/Leiria. De uma forma geral, todas as empresas foram, com maior ou menor impacto, afetadas. Houve danos registados nas estruturas e coberturas das unidades fabris, em equipamentos produtivos sensíveis e de alta tecnologia, agravados pelas chuvas intensas, pelas interrupções energéticas, por limitações ao nível das comunicações, as quais, obviamente, implicaram paragens produtivas. Para algumas unidades, os prejuízos diretos e indiretos ascendem a muitas centenas de milhares de euros, com impactos adicionais decorrentes de atrasos na produção e relações contratuais com clientes. Os apoios prometidos pelo Governo são suficientes para garantir a recuperação plena dessas empresas? Os apoios anunciados são um sinal positivo e necessário, mas, em muitos casos, não serão suficientes para assegurar uma recuperação plena. A natureza altamente tecnológica do setor implica custos elevados de reposição e recuperação de estruturas e equipamentos, bem como perdas associadas na interação com cadeias de fornecimento internacionais. Por outro lado, seria importante que os apoios não se limitassem à criação de maior endividamento das empresas. Que medidas adicionais seriam necessárias? Seria muito importante reforçar o apoio a fundo perdido nas linhas existentes, quer para reposição de equipamentos críticos, quer para reforço de tesouraria. Deveriam ser equacionados mecanismos de compensação por paragens produtivas em função da falta de energia e de comunicações, suportando os custos com o aluguer e utilização de geradores. Por outro lado, a simplificação e aceleração dos processos de candidatura e pagamento são imperativos, pedindo-se o mesmo às entidades seguradoras. Numa fase seguinte, mas imediata, é muito importante termos um apoio à retoma da atividade exportadora e reforço da presença em mercados internacionais. Para o efeito, deve apostar-se numa campanha de imagem e promoção internacional forte e articulada com a AICEP. Em termos setoriais, o desenvolvimento e implementação de um plano de ação estruturado e desenvolvido a médio prazo, que atue ao nível do posicionamento e diversificação de mercados, da diferenciação por via da inovação e I&D, não esquecendo áreas relacionadas com a gestão, os ganhos de escala e dimensão, a implementação de novos modelos de negócio e integração de novas competências será fundamental para relançar a indústria numa nova senda de sucesso. Existe uma estimativa de quando será possível reestabelecer completamente a operacionalidade das unidades afetadas? Não é fácil estipular uma data, uma vez que a recuperação varia de empresa para empresa. Algumas unidades conseguiram já retomar a atividade plena, outras estão no caminho, enquanto outras poderão necessitar de várias semanas ou meses, especialmente quando estão em causa infraestruturas e a operacionalização de equipamentos de elevada precisão. Uma recuperação plena do conjunto das empresas afetadas poderá estender-se até ao final do primeiro semestre de 2026. “A aposta em inovação, tecnologia, digitalização e sustentabilidade, aliada à conquista de novos mercados com base numa reputação internacional construída ao longo de décadas, dá-nos uma perspetiva de confiança no futuro” Que fatores podem condicionar a recuperação? Principalmente, a capacidade financeira e a tesouraria das empresas para suportar custos imediatos que podem derivar da rapidez na atribuição dos apoios públicos e da ativação dos mecanismos das seguradoras. Também o restabelecimento por completo, e sem oscilações, das redes elétricas e de comunicações são fundamentais. Devemos também ter em conta outros fatores, como o tempo de reposição ou substituição de equipamentos danificados, tendo igualmente em conta a manutenção da confiança dos clientes internacionais.

ENTREVISTA 12 Para além da tempestade, que outros fatores estão a pressionar a indústria de moldes? O setor enfrenta hoje um conjunto de desafios estruturais que encontram expressão máxima nas atuais condições de negócio impostas pelos clientes que conjugam baixos preços de venda com longos ciclos de pagamento, criando limitações ao nível da tesouraria e financiamento. Por outro lado, é fundamental lembrar a forte e aguerrida concorrência internacional, nomeadamente a que tem origem fora da Europa. Em paralelo, a atual instabilidade geopolítica global, a incerteza no crescimento dos nossos principais mercados geográficos (Europa) e setoriais (automóvel), promovendo uma reconfiguração das suas cadeias de fornecimento, originam instabilidade e uma dificuldade acrescida para definir uma intervenção consolidada e estabelecida fora do curto prazo. A escassez de mão de obra continua a ser um problema? Sim, continua a ser um dos constrangimentos críticos. A dificuldade em atrair e manter talento qualificado, sobretudo em áreas técnicas especializadas, condiciona a capacidade de crescimento e inovação. A renovação geracional, a integração de novos quadros, a formação e a valorização das carreiras profissionais no setor são desafios a ter em conta nas prioridades das empresas. Que iniciativas concretas está a Cefamol a desenvolver para apoiar as empresas neste momento? No que diz respeito aos efeitos da tempestade, a Cefamol tem vindo a fazer um levantamento sistemático dos danos nas empresas, articulando com entidades públicas ações que permitam ultrapassar as condicionantes imediatas relacionadas com a retoma da atividade produtiva (reconstrução, energia, comunicações, acessibilidades). Foi também promovida uma ‘Bolsa de Disponibilidade’, que permitiu que as empresas não afetadas prestassem apoio produtivo às demais. Em paralelo, junto do Governo, foi reforçada a representação institucional para identificar e ajustar as medidas e programas de apoio às reais necessidades da indústria. Neste sentido, realizaram-se várias reuniões e apresentaram-se propostas, algumas das quais em colaboração e coordenação com outras associações empresariais. Mais estruturalmente, e em função dos desafios mais alargados que enfrentamos, temos vindo a colocar em marcha um plano de intervenção que, ao nível do mercado, contempla a imagem e promoção internacional, bem como a diversificação de mercados, incluindo a abordagem a novas geografias e áreas de negócio. Reforçamos a formação de quadros e técnicos das empresas, e promovemos encontros e sessões para análise e debate de novos fatores de competitividade, como sejam o posicionamento e relação com os clientes, novos modelos de negócio, 'governance', cooperação empresarial, novos instrumentos de financiamento e capitalização, entre muitos outros. A próxima fase passará por dinamizar programas de capacitação e implementação de competências nestas áreas dentro das empresas. Apesar do contexto adverso, vê sinais de confiança no futuro da indústria portuguesa de moldes? Claro que sim! É verdade que, atualmente, os desafios são grandes - e agora agravados por esta situação inesperada - mas o setor tem uma notável capacidade de adaptação, inovação e resposta a contextos adversos. A aposta em inovação, tecnologia, digitalização e sustentabilidade, aliada à conquista de novos mercados com base numa reputação internacional construída ao longo de décadas, dá-nos uma perspetiva de confiança no futuro. Que mensagem gostaria de deixar às empresas da região neste momento particularmente exigente? De confiança e cooperação. A história da indústria de moldes em Portugal demonstra uma extraordinária capacidade de superação e adaptação às circunstâncias do mercado. Este é um momento exigente, mas também uma oportunidade para reforçar a coesão do setor, acelerar a modernização organizacional e produtiva, abordar e conquistar novos mercados e áreas industriais e afirmar, com ainda mais força, a excelência das nossas competências, do nosso know-how, da nossa competitividade no panorama internacional.

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14 TENDÊNCIAS NA INDÚSTRIA Tendências económicas para 2026: um ano de transformação e resiliência industrial Entre um crescimento económico moderado, cadeias de valor sob pressão e uma aceleração tecnológica sem precedentes, 2026 afirma-se como um ano de decisões críticas para a indústria. Mais do que antecipar cenários, as empresas são chamadas a transformar tendências estruturais em vantagem competitiva num contexto marcado por maior seletividade económica. Marta Clemente O início de 2026 encontra o tecido industrial europeu num momento de estabilização frágil, após vários anos de choques sucessivos – pandemia, inflação elevada, conflitos geopolíticos e disrupções logísticas. Embora os indicadores macroeconómicos apontem para alguma normalização, subsistem condicionantes estruturais que limitam o crescimento e impõem maior rigor nas decisões de investimento. Neste contexto, temas como sustentabilidade, digitalização, reorganização das cadeias de abastecimento e governação tecnológica deixam de ser abordagens prospetivas e passam a integrar o núcleo da estratégia empresarial. CRESCIMENTO CONTIDO E INCERTEZA ESTRUTURAL As perspetivas para a economia global em 2026 apontam para um crescimento moderado. De acordo com o mais recente relatório da Crédito y Caución, o PIB mundial deverá crescer cerca de 2,6%, refletindo um abrandamento, ainda que com uma recuperação ligeira projetada para 2027. Na Zona Euro, a recuperação deverá situar-se em torno dos 0,9%, penalizada pela lenta retoma industrial e pelos efeitos prolongados das tensões comerciais. Ainda assim, países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia deverão beneficiar do dinamismo do setor dos serviços – em particular turismo, logística e serviços técnicos – com impacto indireto sobre a atividade industrial, quer através da procura interna, quer pelo estímulo ao investimento e à modernização de infraestruturas. Para a indústria, este enquadramento traduz-se num ambiente mais seletivo, marcado por maior rigor no acesso ao financiamento e pressão sobre margens, exigindo foco na eficiência operacional e na diferenciação. COMÉRCIO INTERNACIONAL: DESACELERAÇÃO E RECONFIGURAÇÃO Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que as empresas exportadoras nacionais perspetivam um aumento nominal de 5,1% nas exportações de bens em 2026, com destaque para as exportações de máquinas e outros bens de capital, que deverão crescer 12,2%. A redução da procura global de contentores e a descida dos custos de transporte aliviam algumas pressões conjunturais, mas não eliminam riscos estruturais, nomeadamente a dependência de matérias-primas críticas e a volatilidade dos preços da energia, que continuam a condicionar setores industriais intensivos em capital e exportação. Neste cenário, ganham relevância estratégias de diversificação de for-

15 TENDÊNCIAS NA INDÚSTRIA necedores, regionalização produtiva e investimento em rastreabilidade ao longo da cadeia de valor, como resposta a um comércio internacional mais fragmentado e exigente. SUSTENTABILIDADE: DE REPORTE A DECISÃO ESTRATÉGICA A sustentabilidade consolida-se em 2026 como um eixo central da decisão empresarial. Esta foi uma das mensagens-chave do webinar ‘Tendências ESG 2026 e mais além’, promovido pelo BCSD Portugal, que reuniu especialistas das áreas de foresight, tecnologia e consultoria estratégica. Durante a sessão, Rafael Popper, diretor da área de consultoria da Futures Capacity Academy (FCA), académico, investigador e reconhecido consultor internacional especializado em foresight, sublinhou que o essencial não está em prever o futuro, mas em preparar as organizações para diferentes cenários possíveis, transformando incerteza em opções estratégicas. Na mesma linha, Manuel Mota, partner da EY e líder da área de sustentabilidade para Portugal, Angola e Moçambique, destacou que muitas empresas estão a adotar voluntariamente quadros de referência de sustentabilidade, mesmo não estando abrangidas por obrigações formais de reporte, reconhecendo vantagens competitivas ao nível da reputação e do acesso a financiamento. A simplificação recente de alguns enquadramentos regulatórios, embora alivie encargos para determinadas empresas, levanta desafios em matéria de comparabilidade e governação, reforçando a responsabilidade das organizações na definição de critérios consistentes e credíveis. TECNOLOGIA AO SERVIÇO DA INDÚSTRIA A aceleração tecnológica mantém- -se em 2026 como um dos principais motores de transformação industrial. A maturidade crescente da Inteligência A aceleração tecnológica mantém-se em 2026 como um dos principais motores de transformação industrial

16 TENDÊNCIAS NA INDÚSTRIA Artificial, a consolidação de modelos de cloud híbrida e multicloud e o reforço das exigências em cibersegurança estão a redefinir prioridades de investimento. De acordo com análises da Colt Technology Services, a IA entra numa fase em que o foco deixa de ser a experimentação e passa a centrar-se na geração efetiva de retorno. Após investimentos significativos, o desafio passa por integrar estas soluções nos processos industriais, assegurando ganhos mensuráveis de eficiência, fiabilidade e previsibilidade. A expansão do edge computing, impulsionada pela necessidade de processamento em tempo real e pela soberania dos dados, terá impacto particular em ambientes industriais, permitindo suportar automação avançada e monitorização contínua ao aproximar a capacidade de computação do chão de fábrica. Em paralelo, 2026 será marcado pela entrada em vigor de novos quadros regulatórios europeus, como o AI Act e o Cyber Resilience Act, com impacto significativo na indústria e exigindo uma abordagem mais estruturada à governação tecnológica, nomeadamente em sistemas de OT (Operational Technology). IMPACTOS NA INDÚSTRIA METALOMECÂNICA A indústria metalomecânica enfrenta um cenário de procura seletiva e forte concorrência internacional. As análises da Crédito y Caución apontam para um contexto de investimento mais cauteloso e pressão sobre margens, agravado pela concorrência de mercados asiáticos e pela incerteza associada a tarifas e tensões geopolíticas. A modernização de processos, a automação e a digitalização assumem um papel central para compensar a escassez de mão de obra e reforçar a eficiência, enquanto a transição energética e os investimentos em infraestruturas criam oportunidades para empresas capazes de responder a requisitos técnicos exigentes e a critérios ESG cada vez mais presentes. DECIDIR EM CONTEXTO DE INCERTEZA Mais do que um ano de rutura, 2026 afirma-se como um ano de decisões exigentes. Como foi salientado no encontro do BCSD Portugal, sustentabilidade, tecnologia e inovação não são apenas temas para comunicar, mas prioridades que requerem execução coordenada entre empresas, governos e sociedade. Num ambiente marcado por crescimento moderado, disrupção tecnológica e pressão regulatória, a vantagem competitiva dependerá da capacidade de interpretar sinais, integrar diferentes dimensões da estratégia e transformar incerteza em ação informada. Para a indústria, construir resiliência, flexibilidade e visão de longo prazo deixa de ser opcional e passa a ser condição de sobrevivência. n

18 TECNOLOGIAS DIGITAIS DE APOIO À PRODUÇÃO Escassez de talento acelera adoção de agentes de IA na indústria José Maria Alonso, country manager da Snowflake para Portugal e Espanha • A escassez de mão de obra qualificada levará a uma maior adoção de soluções de produtividade impulsionadas pela IA no setor industrial O setor industrial enfrenta uma crise global de mão de obra qualificada, com uma escassez crítica de perfis que vão desde montadores de tubagens a técnicos especializados nas principais economias industriais. Em 2026, os fabricantes a nível mundial irão recorrer à IA para transformar as capacidades da sua força de trabalho, capacitando os trabalhadores qualificados para tarefas complexas, ao mesmo tempo que automatizam processos rotineiros, permitindo que as equipas se concentrem em atividades de maior valor acrescentado que impulsionam a inovação e o crescimento. À medida que os custos da mão de obra aumentam globalmente e os trabalhadores qualificados se tornam cada vez mais escassos, a eficiência impulsionada pela IA — tanto nas operações de produção como nas da cadeia de abastecimento — diferenciará os fabricantes competitivos daqueles que lutam para manter os níveis de produção e controlar os custos. As empresas que conseguirem “As empresas que dominarem os ganhos de produtividade impulsionados pela IA ganharão quota de mercado”, assegura José María Alonso, country manager da Snowflake para Portugal e Espanha A adoção da inteligência artificial no setor industrial está a ocorrer num contexto de escassez de mão de obra qualificada. Neste enquadramento, é possível identificar duas tendências fundamentais que vão marcar o rumo da indústria em 2026:

Os fabricantes vão utilizar cada vez mais agentes de IA para tomar decisões operacionais automatizadas que têm impacto direto na eficiência e na redução de custos. 19 TECNOLOGIAS DIGITAIS DE APOIO À PRODUÇÃO dominar os ganhos de produtividade impulsionados pela IA conquistarão quota de mercado aos concorrentes que ainda dependem de abordagens tradicionais intensivas em mão de obra. • A IA baseada em agentes impulsionará a logística e a otimização da produção na indústria O foco da indústria em resultados comerciais quantificáveis posiciona bem o setor para a adoção de metodologias avançadas de IA em 2026. As empresas industriais irão implementar agentes de IA para tomar decisões operacionais automáticas com impacto direto na eficiência e na redução de custos, nomeadamente na agilização de lotes de produtos para cumprimento de prazos de entrega, na otimização do encaminhamento de inventário com base em sinais de procura em tempo real e no redirecionamento automático de produtos para inspeção de qualidade ou na definição de sequências de produção ideais. Esta abordagem orientada para resultados de negócio acelerará a adoção da IA baseada em agentes em áreas onde a tomada de decisões automatizada oferece melhorias operacionais claras e vantagens competitivas. Os primeiros a adotar obterão benefícios operacionais significativos à medida que estes sistemas demonstrem o seu valor em ambientes de produção controlados. n

20 TECNOLOGIAS DIGITAIS DE APOIO À PRODUÇÃO De que forma as ferramentas digitais impulsionam e aceleram os ciclos de aprendizagem das mulheres na engenharia? Todos os anos, no dia 11 de fevereiro, celebra-se o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, e um dos desafios do setor consiste, precisamente, em incentivar e aumentar o número de jovens mulheres em profissões STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). No entanto, pouco se fala sobre o que acontece quando elas, efetivamente, começam a trabalhar nesta área: como se constrói a confiança profissional, como se desenvolve o critério técnico e como a aprendizagem prática se torna a base de uma carreira sólida e sustentável. Souha Souhaiel, especialista em apoio ao cliente e desenvolvimento de negócios na Misumi

21 TECNOLOGIAS DIGITAIS DE APOIO À PRODUÇÃO Souha Souhaiel, especialista em apoio ao cliente e desenvolvimento de negócios na Misumi. Como engenheira, vi em primeira mão que a engenharia não se aprende apenas nos livros ou nas aulas teóricas. Aprende-se através da iteração: projetando uma solução, testando-a, identificando erros ou limitações, corrigindo-os e tentando novamente. Este ciclo repetido de teste e ajuste é a chave para desenvolver competência e confiança. Quando a iteração depende de terceiros ou o feedback chega tarde, a aprendizagem torna- -se mais lenta. Para muitas de nós nos primeiros anos de carreira, isso pode significar menos oportunidades de experimentar e consolidar o nosso próprio critério. Na prática, os profissionais em início de carreira dedicam grande parte do seu tempo a tarefas de coordenação e preparação: gerar planos 2D a partir de modelos 3D, interpretar tolerâncias, enviar ficheiros a fornecedores e aguardar orçamentos ou confirmações de prazos. Estas etapas, necessárias nos fluxos de trabalho tradicionais, introduzem atrito e atrasam os ciclos de feedback, afastando as decisões técnicas daqueles que desenham a peça. É aqui que a digitalização começa a transformar a experiência de aprendizagem. Plataformas como a Meviy permitem carregar modelos CAD 3D e receber informações imediatas sobre fabricabilidade, preços e prazos de entrega, sem esperar pelos fornecedores nem refazer etapas manuais. Isto encurta os ciclos de aprendizagem e permite experimentar de forma mais autónoma. A possibilidade de iterar rapidamente, explorar alternativas e ajustar decisões em tempo real reforça a confiança técnica e acelera o desenvolvimento de competências, algo especialmente relevante para quem está a dar os primeiros passos na profissão. O impacto deste tipo de ferramentas digitais vai além da eficiência industrial: abre oportunidades para que mais mulheres consolidem a sua presença na engenharia, tomem decisões com segurança e aprendam através da prática constante. Reduzir o atrito na aprendizagem não significa apenas otimizar processos, mas criar um ambiente onde o talento feminino possa crescer plenamente, com autonomia e com a possibilidade de enfrentar desafios reais sem depender de longos ciclos administrativos. Aprender através da iteração também significa aceitar os erros como parte do processo. Cada projeto que falha, cada tolerância que não é cumprida, cada peça que demora mais do que o previsto é uma oportunidade para compreender melhor as limitações técnicas e ajustar as soluções. As ferramentas digitais não substituem o julgamento profissional, mas aceleram o seu desenvolvimento e permitem mais tentativas, mais aprendizagem e mais confiança em cada decisão. É importante lembrar que a igualdade na engenharia não começa nem termina na educação: ela começa quando enfrentamos os primeiros projetos reais, quando precisamos de aplicar conhecimentos, tomar decisões e aprender de forma autónoma. A digitalização e as plataformas de fabrico inteligente são aliadas estratégicas nesse caminho, pois permitem encurtar distâncias entre a ideia e o protótipo, reduzir dependências externas e consolidar a confiança técnica de forma tangível. Hoje sabemos que acelerar os ciclos de aprendizagem não é apenas uma questão de velocidade, é uma questão de talento, confiança e oportunidades. A tecnologia, quando aplicada de forma consciente, oferece a possibilidade de transformar os ambientes de trabalho em espaços onde as mulheres podem aprender mais rapidamente, errar com segurança e crescer profissionalmente desde as primeiras etapas da sua carreira em engenharia. Na minha opinião, este é o legado mais valioso que podemos promover no Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência: um ambiente de aprendizagem mais justo, mais autónomo e mais eficaz para quem constrói o futuro da engenharia. n

22 TECNOLOGIAS DIGITAIS DE APOIO À PRODUÇÃO IA industrial abandona fase piloto e ganha escala na indústria transformadora A IFS apresentou o relatório ‘State of Service 2025: Manufacturing Transformation Report’, elaborado em colaboração com a Accenture, que analisa a situação do setor industrial com base nas opiniões de mais de 800 altos cargos. O estudo, publicado em novembro de 2025, conclui que a inteligência artificial (IA) industrial está a sair da fase piloto e a ganhar escala, e que os serviços se consolidaram como um eixo estratégico para o crescimento empresarial. O estudo detalha um setor em plena transição, impulsionado tanto pelos avanços tecnológicos quanto pela evolução das expectativas dos clientes. 63% dos fabricantes priorizam a infraestrutura em nuvem e tecnologias emergentes como IA, Internet das Coisas (IoT) e realidade aumentada (RA) para garantir o crescimento futuro. No entanto, observa-se uma diferença significativa na adoção da IA: enquanto 96% já a utilizam na prestação de serviços, quase três quartos (75%) ainda não a estenderam a todas as suas operações. Apenas 28% dos fabricantes experimentaram o uso da IA, o que reflete que persistem desafios como a governança da qualidade dos dados, a cibersegurança, a privacidade e a integração com sistemas legados. Superar esses desafios é crucial para aproveitar o valor da IA na otimização das operações e na tomada de decisões preditivas em tempo real. 96% dos fabricantes já utilizam a IA na prestação de serviços, mas quase três quartos não a estenderam a todas as suas operações, de acordo com este relatório.

23 TECNOLOGIAS DIGITAIS DE APOIO À PRODUÇÃO A servitização confirma-se como um motor de crescimento, com 39% dos inquiridos a considerá-la um elemento-chave para impulsionar os lucros a longo prazo. Neste sentido, Mark Moffat, diretor executivo da IFS, afirma que “94% dos fabricantes afirmam que os novos modelos de serviço já estão a ter um impacto nas operações”. Por sua vez, Gert Müller, responsável pela gestão inteligente de ativos para a Europa, Médio Oriente e África (EMEA) da Accenture, sustenta que “atualmente, a fabricação consiste em inovar mais rapidamente, otimizar de forma mais inteligente e prestar serviços com inteligência. O serviço atingiu um ponto de inflexão: já não é uma função de apoio, mas sim a primeira linha da vantagem competitiva”. Segundo Gonzalo Valle, gerente de pré-venda da IFS, “o relatório também aponta que a IA industrial e a sustentabilidade estão a redefinir a forma como os fabricantes competem, operam e geram valor, destacando a necessidade de agir rapidamente para aproveitar as oportunidades que esta nova era industrial oferece”. A servitização é considerada por 39% dos inquiridos como fundamental para impulsionar os benefícios a longo prazo. De facto, a sustentabilidade é uma prioridade estratégica para 97% dos fabricantes. 79% já monitorizam as emissões produzidas pelos seus serviços e 37% fazem-no em tempo real. As empresas estão a adotar a economia circular através de componentes recondicionados, otimização de rotas e manutenção preditiva para reduzir o desperdício e aumentar o ciclo de vida dos ativos. Em termos de resiliência operacional, 95% dos inquiridos foram afetados por interrupções na cadeia de abastecimento durante o último ano, mas apenas 32% se sentem ‘muito confiantes’ na sua capacidade de gerir essas perturbações. Este panorama é agravado pela intensificação da escassez de mão de obra, relatada por 98% das empresas. Para enfrentar esta situação, os fabricantes estão a impulsionar a formação e o desenvolvimento da força de trabalho através de academias internas, plataformas de aprendizagem digital, parcerias académicas e automação seletiva, com o objetivo de se adaptarem a um futuro mais centrado nos serviços. O relatório sublinha que a implementação bem-sucedida da IA, a incorporação de novos modelos de serviço e a abordagem dos desafios relacionados com a mão de obra e a sustentabilidade definirão a próxima era da competitividade industrial. n 98% das empresas fabricantes relatam escassez de mão de obra qualificada.

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